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Perto dos 20 anos dos Crimes de Maio, escola de samba que homenageou mães vence desfile em SP

A C.R.C.E.S. Academia Zona Noroeste venceu o desfile de Carnaval de 2026 no Grupo de Acesso da Baixada Santista (SP). Com o enredo "Grito de Liberdade", a escola jogou luz na base do samba paulistano: a denúncia por meio da cultura.

Mães do Movimento Independente Mães de Maio — incluindo sobreviventes de traumas recentes, como as operações Escudo e Verão — ocuparam o posto de "guardiãs do estandarte" na Ala das Baianas. O enredo trouxe o trauma histórico das opressões que atingiram, e ainda atingem, os corpos negros; desde o Porto de Santos, durante a escravidão, até as periferias contemporâneas.

Créditos: Noah Taiki - Desfile 2026 Escola de Samba Unidos da Zona Noroeste
Créditos: Noah Taiki - Desfile 2026 Escola de Samba Unidos da Zona Noroeste


Débora Maria Silva (cofundadora do Movimento Independente Mães de Maio e membro do FPSPPD-SP) compartilhou que a proposta da escola é uma ruptura necessária com o modelo de espetacularização vazio de conteúdo político, que ela denomina "Carnaval Globeleza". Para "Dona Débora", seu vulgo popular, a função social das agremiações foi resgatada ao colocar no samba o corpo negro e os mortos pela violência contemporânea de Estado, denunciando o próprio extermínio.

"Sempre critiquei que se matava tantos jovens e a gente não via uma escola de samba crítica. O Carnaval mudou do modelo antigo e acabou virando 'modelo Globeleza'. Mas a Zona Noroeste trouxe a denúncia. (...) Eu me apaixonei por eles falarem no samba-enredo: 'As Mães de Maio a nos embalar'. Isso significou muita coisa. Foi emocionante e gratificante conduzir a escola atrás do abre-alas com a nossa bandeira do movimento, com a maioria dos componentes da escola sendo povo de favela."

No Brasil, jovens negros têm 2,6 vezes mais chances de serem assassinados do que jovens brancos (Fórum Brasileiro de Segurança Pública). A letalidade policial em São Paulo atinge desproporcionalmente a juventude negra, que compõe a maioria das vítimas das operações citadas por Dona Débora. Só em 2025, foram 834 casos de mortes por policiais, de acordo com dados da SSP-SP.

Trecho do Samba-Enredo: (…) Em teus braços o acalanto As Mães de Maio a nos embalar Melanina, pele preta do povo, cais Salve os nossos ancestrais Um sorriso… um abraço negro A arte retinta por todas as partes Empoderamento… orgulho de ser favela Ritmo perfeito entre becos e vielas O galo canta… Academia se manifesta! (…)

A presença não só das mães ativistas por justiça nos Crimes de Maio de 2006, mas também de mães vítimas da violência das operações Escudo e Verão, reforçou que o genocídio não é um fato isolado do passado, mas uma política de segurança pública que continua produzindo órfãos e luto.

O título de campeã conquistado pela Unidos da Zona Noroeste reafirma a cultura popular como uma ferramenta fundamental de denúncia e memória para aqueles que ainda buscam reparação. ___________ A PBPD é uma das organizações e entidades integrantes do Fórum Popular de Segurança Pública e Política de Drogas do Estado de São Paulo (FPSPPD-SP) criado em 2024. Redação: Kyalene Mesquita

 
 
 

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